segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Dança e estética da existência

A DANÇA DO DEVIR
Ivan Maia de Mello

A vida, interpretada como algo em constante mutação, encontra na dança sua metáfora plena de fluência imprevisível, leveza incorporada, graça transfiguradora e criatividade lúdica.
Em seu vir a ser, a vida se mostra numa dinâmica de impulsos que tomam corpo na vivência do acontecimento, de modo que se pode pensá-la como uma improvisação em dança que, à medida que desenvolve um domínio de suas possibilidades, aproxima-se da plenitude da realização criadora.
O devir, simbolizado inicialmente por Heráclito como um rio no qual não se entra duas vezes no mesmo, é antes de tudo fluxo. Fluxo de impulsos, de forças, de energias. A fluência da energia vital nos acontecimentos é assim interpretada como correnteza. E assim como as correntezas dos rios com seus meandros é o devir da vida.
Zaratustra, personagem de Nietzsche em sua obra Assim falou Zaratustra, dizia que o devir queria que ele o ensinasse a falar. E falou assim: “Somente dançando sei falar em imagens das coisas mais valiosas”. A dança é, assim, o modo de Nietzsche simbolizar o devir. E se para ele o devir é uma dança é por ser constituído de acaso e caos, isto que Zaratustra diz ser preciso ter ainda dentro de si para dar à luz uma estrela dançante. Este é o devir cósmico do caos, a dança cósmica da criação do universo, ou, como disse Zaratustra, “a divina dança do devir”.
Aceitar a casualidade do devir é condição para exercer domínio sobre as possibilidades de tornar-se o que se é, isto é, dar ao devir o caráter do ser, como disse Nietzsche em um de seus fragmentos de anotações publicadas postumamente.
A imprevisibilidade da vida foi considerada por Nietzsche como qualidade inerente a esse processo de tornar-se o que se é, o qual foi enunciado originariamente pelo poeta grego Píndaro como um imperativo ontológico. Diz Nietzsche em sua autobiografia Ecce homo: “Que alguém se torne o que é pressupõe que não suspeite sequer remotamente o que é.” Isso é o que significa a fluência imprevisível que se atribuiu à vida e que torna necessário que se saiba e se possa improvisá-la como uma dança.

2 comentários:

Anônimo disse...

Toda ajuda é uma auto-ajuda, todo serviço é um auto-serviço. Ninguém ajuda um outro pelo simples prazer de ajudar e sim, aumentar o poder sobre ele.
Seja bem vindo Prof. Ivan Maia. Gostaria de ler algumas poesias suas, não encontrei no seu blog. Um forte abraço, Raí Maia. Seu quase chará!!!
Psicologia noturno 1º Semestre. FAMEC.

Ivan Maia de Mello disse...

Olá Raí, obrigado por seu comentário. Meus poemas eu publiquei no blog de poesia:
www.corpoema.blogspot.com
Dê uma olhada e depois me diga se algum poema lhe agradou.
Abraço, Ivan.