quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Cura e apropriação de si

A partir de uma concepção de saúde pensada como exercício efetivo da potência vital do corpo, em suas relações com outros seres e ambientes, a cura surge no pensamento filosófico como uma reapropriação de si, de suas possibilidades mais próprias, que expressam a singularidade de seu sentido existencial.
A doença, pensada a partir do médico e epistemólogo Canguilhem, enquanto perda de flexibilidade na capacidade corporal de criar normas para o desempenho de suas funções orgânicas, é interpretada como o que desafia a renovação de forças vitais necessárias à efetivação do projeto existencial de realização pessoal.
A superação da crise desencadeada pela doença se dá pela recuperação da potência vital de uma saúde considerada mutável e múltipla. O desafio instaurado com a crise do adoecimento torna necessário um retorno a si no qual se recebe de volta sua tarefa existencial de dar sentido à vida, como uma “gravidez inconsciente” da qual falou o filósofo Nietzsche.
A convalescença se inicia com a tomada de decisão provocada pelo impulso de superação da crise, e se manifesta na forma de um cuidado de si que, através de cuidados terapêuticos, gera a disposição para enfrentar dificuldades maiores do que as que se tinha antes do adoecimento: o esforço dedicado a reconquistar a saúde, recriando-a propriamente como uma nova normalidade singular.
Isso conduz a uma apropriação dos meios disponíveis, em termos de recursos e dons, a serem empregados com toda fé na revitalização do corpo em sua complexa harmonia, naturalmente diversificada e dinâmica.
O mais importante desses meios de cura é a alegria. Uma alegria que não pode ser dependente da existência de motivos para tal, e sim uma alegria afirmadora do amor à vida em sua finitude existencial, que possibilita a transcendência da auto-superação, como caminho para uma grande saúde.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Saúde e auto-superação

A saúde se torna uma questão filosófica quando se considera a ética, enquanto pensamento filosófico relativo à conduta de cada um, na relação consigo mesmo e com os demais. No modo como cada um se conduz em relação a si mesmo, a questão da saúde surge com a problematização do cuidado de si. Cuidar de si mesmo, de seu corpo, de sua saúde, de suas realizações, seu projeto existencial, tornou-se, como mostrou Foucault, o tema de toda uma produção filosófica grega e romana ocupada em dar estilo a sua existência.
Spinoza já havia introduzido na discussão filosófica uma avaliação da potência vital dos afetos alegres e tristes, experimentados nas relações com outros seres vivos e coisas. A saúde torna-se então um modo de exercer ativamente uma seleção de encontros que promovam os afetos portadores de uma disposição de humor favorável à vida.
Nietzsche, por sua vez, apresenta o conceito de grande saúde como criação de sua filosofia trágica. O trágico é pensado por ele como uma afirmação da vida, mesmo diante de seus maiores problemas e dificuldades. Ele considerava decadente o pensamento incapaz de afirmar a vida como ela é, aceitá-la ativamente. Ele mostrou que a moral é portadora de afetos ressentidos, como remorso, culpa, vergonha, que tendem a enfraquecer nossa vitalidade, assim como todo idealismo, que gera afetos melancólicos, nostálgicos, portadores de esperanças fracas, porque ilusórias.
Para Nietzsche, as perspectivas decorrentes de interpretações racionais da existência também seriam decadentes à medida que querem sobrepor a razão à própria vida, como critério de avaliação dos acontecimentos. Ele desenvolve uma perspectiva centrada em seu conceito de vontade de potência como uma vontade de potencializar a vida, que atua como força plasmadora de sentidos existenciais.
Essa vontade de potência quer, acima de tudo, expandir a vida, torná-la vigorosa, intensificar seus impulsos de realização. Ela precisa superar o niilismo presente nas perspectivas metafísicas que separam corpo e espírito, e conduzem o ser humano a uma crise, a qual só é superada pela transmutação dos valores desvitalizantes em valores vitais para a aventura de experimentar muitas saúdes mutáveis, singulares.
A coragem necessária para a conquista dessa grande saúde surge pelo cultivo de uma condição de humor disposta a tornar leve o que há de pesado na existência, através da alegria, do riso, da brincadeira, que fazem da vida uma experiência plena de significado e graça. A abundância de forças vitais da grande saúde torna possível pensar de modo saudável mesmo na doença e compreender a doença de um ponto de vista vitalizado. Esta saúde precisa então ser conquistada, cada vez, pela incorporação dos impulsos mais vitais ao projeto existencial de cada um, que terá sempre de se desprender de sua abundância de vitalidade, ao empregar toda energia vital disponível no sentido de fazer da vida uma obra de arte.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Corpo e cultivo de si

O corpo é pensado filosoficamente como o ser próprio (self) a partir do qual surgem pensamentos e sentimentos, e cuja vontade reúne e coordena a multiplicidade de impulsos, pulsões, instintos, desejos e inclinações do ser humano.
O pensamento filosófico cria seus conceitos a partir da intuição produzida pela sensibilidade que é corporal e interpreta a realidade da vida segundo a perspectiva própria a sua condição existencial. A singularidade de sua perspectiva se encontra no modo como alguém se apropria de si mesmo, incorporando os valores que possibilitam o desenvolvimento de seus dons, talentos e capacidades, no sentido da criação de um modo de vida pleno de realizações.
A abundância de vitalidade característica da grande saúde é a condição fisiológica que torna possível uma intensificação dos sentidos mais vitais à autocriação do ser humano. A vivência do prazer potencializa seu processo imanente de transcendência no qual o ser humano supera a si mesmo, criando para além de si a vida como uma obra de arte.
É a partir de uma aceitação integral da realidade da vida em constante vir a ser que se desenvolve a alegria espiritual capaz de conhecer o mundo em que se situa sua existência e agir nele de modo a produzir as condições favoráveis à expansão de sua forma de vida.
O amor próprio é o que torna possível a transmutação dos afetos ressentidos e desvitalizantes numa afirmação corajosa da existência que se lança na aventura de tornar-se o que se é. Esse amor próprio se manifesta principalmente na forma do cuidado de si que desenvolve um modo singular de subjetivação capaz de libertar-se dos processos de normalização disciplinares que modelam a subjetividade e com isso desencadear a heterogênese da produção de subjetividade.
Isso requer a criação de uma ética singular que promova uma estética da existência e resista às relações de poder que tendem a exercer um controle das sensações e uma repressão de emoções, particularmente as que constituem a sexualidade. Isso possibilita que se dê uma tonalidade entusiasmada ao ânimo. A noção de virtude que emerge dessa ética singular é a de uma felicidade que não mais se busca alcançar como ideal, mas de uma condição de humor disposta a uma ampla experimentação de vivências enriquecedoras do espírito.
Desse modo, pode-se superar o ideal consumista de felicidade da sociedade contemporânea influenciada pelas potências econômicas imperialistas do mundo e improvisar modos de vida que produzam uma nova experiência orgânica de ambientação e atividade, onde o labor, a alimentação, o descanso, o sexo e as demais ocupações se apóiem no potente metabolismo da condição fisiológica de um corpo criador preparado para a dança da vida.

Ivan Maia de Mello

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Vontade e vitalidade

A questão da vitalidade surge no pensamento filosófico quando se considera a condição fisiológica desde a qual se desenvolve um ponto de vista, uma perspectiva, a partir de uma intuição. O pensamento filosófico pode então ser avaliado quanto a sua vitalidade quando se toma a vida, em sua potência de tornar-se vigorosa, diversificada, exuberante, como valor supremo.
A primeira questão que surge para apreciação do valor de um pensamento quanto a sua vitalidade é a de sua relação ontológica com o devir, o constante movimento do vir-a-ser, o fluxo incessante de acontecimentos na existência ou a dinâmica da realidade em permanente mutação. Um pensamento vitalizante é aquele que afirma o devir, o prazer de que se faça o devir, e com isso torna-se capaz de amar a vida como ela é, aceitando-a ativamente em sua integridade. Por outro lado, um pensamento decadente é o que se mostra incapaz de tal afirmação e se ressente da transitoriedade da existência, como é o caso de toda a tradição metafísica que valoriza mais a suposta permanência do ser em oposição à transitoriedade do devir.
Por isso mesmo, o pensamento que afirma o devir é o que pode desenvolver a potência singular de criação de um modo próprio de vida enquanto processo contínuo de autocriação que se dá a partir de sua condição existencial pela incorporação dos valores mais vitais a sua auto-superação. Isto ocorre quando o passado é redimido e transmutado em seu significado que passa a dar sentido ao presente enquanto criação do futuro como projeto existencial.
Para isso, é preciso vivenciar uma libertação dos aspectos de sua condição existencial que impedem o pleno desenvolvimento de sua vitalidade, o que acontece por força da vontade de potencializar a vida no sentido de suas realizações. Isto torna necessário uma apropriação de todos os seus dons, talentos, capacidades, recursos e demais possibilidades existenciais que podem intensificar seus afetos mais importantes, os impulsos entusiasmados, os sentimentos mais elevados, as sensações mais prazeirosas, as emoções mais animadas.
A potência da vitalidade, interpretada como poder de efetivação de um projeto existencial enquanto um modo próprio de vida, é uma conquista de quem se lança na aventura de viver com a coragem de arriscar-se diante das incertezas da vida mantendo altivo seu espírito e alegre seu estado de humor, o que possibilita um domínio das paixões sem necessariamente haver qualquer tipo de controle ou repressão de suas pulsões vitais.
O pathos - termo grego de onde derivam as palavras paixão, simpatia, passivo, paciente, patologia, entre outras - é compreendido como a disposição afetiva que está em jogo na questão da vitalidade. O pathos afirmativo da vontade de potencializar a vitalidade de suas realizações existenciais requer uma grande saúde que não apenas se tem, mas constantemente se conquista, pois sempre se perde, com o dispêndio de energias necessário à efetivação de suas possibilidades mais vitais.
A vitalidade de um modo de vida pode então ser avaliado pela potência do metabolismo corporal em sua capacidade de “digerir” os acontecimentos de sua existência, evitando ressentir-se deles pela transmutação de seus significados, no sentido de tornar vigorosas as forças vitais de seus instintos, desejos e inclinações capazes de superar as perspectivas niilistas presentes na moral, na razão, na religião, na política e em outros setores das atividades humanas, em favor da instituição cultural de uma sensibilidade lúdica que promove a ética do cuidado de si em nome de uma estética da existência.

domingo, 7 de outubro de 2007

Estética da singularidade

A CONCEPÇÃO DA ESTÉTICA FILOSÓFICA
COMO PENSAMENTO PROBLEMATIZADOR DA CRIAÇÃO ARTÍSTICA
Ivan Maia

A palavra estética se originou da palavra grega aisthesis, que significa algo como a sensibilidade, ou seja, refere-se ao campo de sensações experimentadas na existência enquanto criação. As sensações estéticas envolvem, antes de tudo, o prazer de criar, a partir de um gosto próprio, formas e signos que promovam a vida, num jogo que se abre ao vir a ser como possibilidade singular.
Se, de certo modo, a criação artística imita a natureza, é por tentar reproduzir a dinâmica do real e tornar-se produção (em grego, poiesis) de acontecimentos que, em sua singularidade, torna manifesta a inventividade originária do artista.
Em seu processo criativo, o artista não tem necessariamente que passar pela contemplação da beleza de algum modelo para gerar uma obra de grande valor estético. Sua criatividade depende muito mais da sensibilidade com que vivencia o acontecimento criador da obra de arte.
Por isso, a expressão numa linguagem artística só alcança a realização de um estilo próprio quando se liberta das normas estéticas vigentes que direcionam a criação segundo as tendências predominantes, possibilitando, com essa transmutação de valores, uma experimentação visceral da espontaneidade transfiguradora da imaginação, capaz de transformar simbolicamente o caos percebido na realidade vivida num arranjo harmônico de elementos que passam a ser percebidos, através das metáforas que compõe, enquanto parte integrante do cosmos.
Com suas obras, os artistas participam ativamente de sua cultura, inclusive politicamente, produzindo sentidos que, mesmo que não assumam a vanguarda de um movimento estético, podem superar as tendências massificantes da indústria cultural hegemônica na sociedade, transcender a aridez da erudição inibidora da sensualidade artística e tornarem-se transculturais em suas produções destinadas a universalizar sua singularidade.
Nietzsche, em O filósofo como médico da civilização, diz que “A civilização pode provir unicamente da significação unificadora de uma arte ou de uma obra de arte”, o que aponta para a necessidade de que o mundo que se pretende civilizado venha a valorizar as criações dos artistas no que elas têm de produtoras de subjetividade singularizante, o que depende de uma apropriação artística da realidade vivida socialmente com todo senso crítico que lhe permite “digerir” as circunstâncias da vida, seus problemas, crises de valor, de modo a potencializar o sentido de sua expressão poética.
Para isso, torna-se necessário fazer de nossas próprias vidas obras de arte a serem criadas com todo o vigor da vitalidade poética capaz de afirmar a existência mesmo que ela se manifeste em seu caráter trágico. Isso é o que Nietzsche propõe em O nascimento da tragédia, quando diz: “Devemos sim, por nós mesmos, aceitar que nós já somos, para o verdadeiro criador desse mundo, imagens e projeções artísticas, e que a nossa suprema dignidade temo-la no nosso significado de obras de arte”. Em A gaia ciência, isso é reafirmado assim: “Como fenômeno estético a vida nos é suportável, e por meio da arte nos são dados olhos e mãos e, sobretudo, boa consciência, para poder fazer de nós mesmos um tal fenômeno”.
Para Heidegger, a singularidade da criação artística depende do caráter essencial de sua manifestação. Diz ele em A origem da obra de arte: “Mais essencialmente se manifesta a obra, mais luminosa se faz a singularidade de que ela é”. Isso significa que aquilo que é historicamente essencial à vida cultural de um povo é a principal componente da singularidade de uma obra de arte.

Ética da transvaloração

A questão da ética é considerada aqui em relação aos valores que orientam a conduta do indivíduo em suas relações consigo mesmo, com os outros indivíduos e com o ambiente onde vive. Esse modo de ser é instaurado pelas atitudes que constituem a conduta individual e foi denominado pelos gregos da antiguidade como o ethos.
A partir da consideração da diversidade de condutas adotadas pelos indivíduos na convivência em sociedade, a questão que se coloca quanto à ética é a da avaliação dos diferentes modos de existência no que se refere aos valores que orientam suas condutas.
Se considerarmos a vida como valor supremo – não apenas a vida de um indivíduo ou de uma espécie, mas todo o fenômeno da vida, pensado do modo mais abrangente possível a partir de uma perspectiva ampla, na qual a biodiversidade aparece como valor superior – podemos então avaliar as ações humanas quanto a sua potência vital. A potência vital de uma ação é o seu poder de aumentar a vitalidade dos que estão envolvidos na ação, de potencializar um modo de vida para torná-lo pleno de realizações, abundante de possibilidades, exuberante em suas manifestações existenciais.
Partindo da concepção do ser vivo caracterizado por seu processo de autocriação - ou auto-organização, como se diz em Biologia – pode-se compreender o ethos como o modo de se conduzir na criação de sua forma de vida. Essa criação se dá através de um projeto existencial, por meio do qual o ser humano dá sentido a sua existência.
Portanto, a questão ética da avaliação dos valores que constituem seu modo de vida passa pela análise dos valores que orientam seu projeto existencial de autocriação. A realização de um projeto existencial enquanto exercício de uma vontade pode ser pensada como resultado da dinâmica dos impulsos em jogo na existência do indivíduo, impulsos que buscam se efetivar e que precisam ser avaliados quanto à vitalidade dos valores dos quais esses impulsos são portadores.
Os impulsos mais vitais são assim superiores do ponto de vista ético pois tornam mais vigorosa sua forma de vida. Daí surge a necessidade de se desenvolver um cuidado do ser, da relação com outros seres e ambientes em que se vive. Esse cuidado de si requer um autoconhecimento que possibilite escolher os valores apropriados para o projeto existencial, intensificar os impulsos vitalizantes e selecionar os encontros e relações que mais se afinam ou se harmonizam com seu sentido de autocriação.
A questão da ética remete então à questão política das relações de poder, que refletem o jogo de forças na dinâmica dos impulsos formadora da vontade. Essas relações de poder permeiam as relações humanas e produzem prazer e sofrimento, liberdade e opressão. Torna-se necessário assim que o ser liberte-se das relações de poder que enfraquecem seus impulsos mais vitais para vivenciar relações de poder criativas, afetivas, vitalizantes. Para isso, o ser humano precisa ser capaz de resistir às relações de poder opressoras, enquanto prepara sua libertação. Em alguns casos, torna-se necessário transgredir limites impostos ao crescimento e expansão das forças vitais, embora toda condição existencial seja limitada em suas possibilidades, quer sejam os limites determinados pelo auto-domínio ou pelo controle exercido através de relações de poder de natureza moral ou política.
A superação dos próprios limites, enquanto auto-superação de seu modo de existência, é um impulso inerente ao ser vivo e prioritário em relação ao impulso de adaptação às condições do meio onde vive. Com isso, podemos considerar a singularidade da autocriação como o modo próprio que o ser humano encontra para conduzir-se (ethos) em relação a si mesmo, aos outros e ao ambiente onde vive. Isso é o que poderíamos chamar, pensando na vida como obra de arte, o estilo pessoal na arte de viver, caminho para tornar-se o que se é.

Introdução à Epistemologia: conhecimento é criação

A epistemologia é a área da filosofia que pensa a questão do conhecimento, do saber, da compreensão. Episteme em grego significa conhecimento e o logos pode ser traduzido como compreensão, no sentido de uma apreensão em conjunto de uma realidade ou apreensão global de um fenômeno, que busca captar o real na integralidade de aspectos constitutivos.
A etimologia da palavra conhecimento, por sua vez, remete ao sentido mais evidente na palavra francesa, connaissance, que aponta para um co-nascimento, a possibilidade de nascer junto com o que se conhece. Isto faz lembrar de Fernando Pessoa, no poema Guardador de Rebanhos, que em sua segunda parte traz os versos que dizem:
“E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...” (Alberto Caeiro)
Particularmente os dois últimos versos falam da experiência do conhecimento como uma (necessária) renovação da sensibilidade, um renascimento. Isto pode então ser interpretado – e a interpretação é o ato que produz a compreensão – como uma referência ao caráter empírico da intuição, que sintetiza as percepções de todos os sentidos do corpo daquele que conhece uma realidade, como fenômeno percebido através das sensações.
Essa experiência que se desenvolve a partir do caráter sensível da intuição, composta pelas percepções (e, portanto, sensorial) é a experiência do conhecimento direto da natureza da realidade. Esse conhecimento se realiza em primeira instância, em relação àquele que é transmitido por outrem ao conhecedor.
E, para que uma intuição possa vir a ser comunicada ela precisa ser expressa como concepção por meio de uma linguagem cujos significados sejam elaborados, gerando conceitos, próprios da linguagem filosófica.
Assim, o processo da interpretação, que gera uma compreensão por meio das concepções produzidas a partir de nossas intuições, requer a constante renovação de nossa sensibilidade, para não transformarmos nossos conceitos em preconceitos estabelecidos, que reduzem o que há de novo, diferente, singular, estranho, surpreendente, admirável ou temível, o mistério do desconhecido, ao já conhecido, explicando o singular sem conceber sua novidade, sem criar uma nova concepção, apropriada, que expresse sua radical diferença em relação ao que se considera conhecido.
Novos conceitos que expressam a compreensão de uma realidade interpretada em sua singularidade só podem surgir pelo exercício criativo de novas concepções. A criatividade necessária para isso é, originariamente, aquela da atividade poética, que através das metáforas instauram significados, os quais são elaborados para tornarem-se conceitos, ganhando maior coerência, precisão, rigor.
Assim, mais do que descobertas, as novas concepções são criadas, elaboradas, podemos dizer: inventadas. Eis como, através de um processo de construção de linguagem - que os gregos chamavam poiesis - chega-se, após muitos movimentos, que por mais retilíneos que sejam terão sempre seus desvios, suas curvaturas, a uma noção que se toma como verdade.
Sim, verdades, assim como mentiras, são inventadas. E esse caráter ficcional que se encontra na raiz da linguagem faz com que aquilo que se considera uma verdade esteja sujeito a todo tipo de jogo de forças, relações de poder, ao longo da história humana e, portanto, nem toda concepção possa se mostrar como verdade, assim como nem todo significado chega à nossa consciência, por mais que esteja imediatamente ao nosso alcance.
Há, então, muitos significados em relação aos quais permanecemos inconscientes. E só mesmo através de um esforço decidido de interpretação de nossas realidades podemos expandir nossas consciências e aprofundar nossas concepções, embora a sabedoria nos ensine a aceitar que muito do que buscamos conhecer, tanto no autoconhecimento como no conhecimento do universo, permanecerá ainda reservado, obscuro, enigmático como mistério do mundo.
Além disso, esse caráter ficcional, histórico, mundano, da verdade, não implica numa ausência de critérios para validar conhecimentos, pois a vida, em sua possibilidade mais plena de vir a ser abundante, em sua potência de gerar mais vida, de expandir a vida, intensificá-la, é o melhor critério para avaliar o valor dos conhecimentos que produzimos através de todos os nossos saberes, sejam eles científicos, literários, mitológicos ou de outra natureza.

Uma Filosofia crítica e criativa

POR UMA AUTÊNTICA FILOSOFIA CRÍTICA E CRIATIVA

A filosofia é o pensamento que interpreta a realidade da vida a partir de uma perspectiva, produzindo uma intuição relativa a esta realidade, que é apresentada através de conceitos relacionados coerentemente. A intuição é produzida pela sensibilidade que gera uma compreensão dos fenômenos da vida e as expressa numa linguagem conceitual que comumente assume um caráter paradoxal.
Isto acontece desde o nascimento da filosofia quando os primeiros pensadores se expressavam de modo poético, apresentando suas concepções singulares sobre a natureza da realidade. A primeira grande questão que ainda hoje surge como tema de discussões decisivas relativas à interpretação da realidade é a questão ontológica da existência. Na antiguidade, enquanto Heráclito interpretava a realidade como o que vem a ser, Parmênides a pensava como o que é e permanece sendo essencialmente o mesmo. Estas duas concepções básicas acerca da natureza da realidade geraram diferentes tendências ou correntes epistemológicas, éticas e estéticas.
Se, por um lado, Heráclito inspirou todo um pensamento filosófico que compreende toda a existência de modo dinâmico e imanente (condicionado), como uma realidade em constante movimento e mudança, Parmênides, por outro lado, influenciou toda uma concepção metafísica da existência que pensa o ser como uma realidade transcendente e separada de sua imanência.
A condição humana, por sua vez, é a de um ser-no-mundo. Isto quer dizer que o homem situa-se no mundo, sua existência situa-se no tempo e no espaço, num momento e lugar determinados a partir dos quais se define sua condição existencial imanente. Em verdade, o ser humano cria a si mesmo a partir de sua condição existencial e esta inclui todas as determinações inerentes a sua natureza.
A singularidade de sua autocriação está no modo próprio como o homem concebe sua realidade e efetiva suas possibilidades existenciais. Nesse processo, o homem não é completamente livre para criar a si mesmo como queira, pois se encontra condicionado pela sua forma de existência, sua história, aquilo que do seu passado ainda está presente. No entanto, há uma transcendência possível que não é metafísica, pois não transcende sua imanência, mas transcende a si mesmo, através de uma auto-superação que ocorre a cada momento em que ele projeta um futuro a partir de uma interpretação de seu passado que dá sentido ao presente. Seu projeto existencial o conduz a ir além de si mesmo realizando um sentido vital de auto-superação criadora da existência. Isto se dá a partir de uma libertação dos aspectos de sua condição existencial que determinam os limites que impedem o livre desenvolvimento de sua vitalidade.
Essa libertação acontece por força da vontade de potencializar a vida e fazê-la crescer no sentido de suas realizações. Para isso, a vontade precisa coordenar os impulsos que querem se efetivar dando um sentido propriamente autônomo a sua existência, capaz de intensificar seus afetos mais importantes, seus sentimentos mais elevados, suas sensações mais prazeirosas, suas emoções mais animadas.
Isto requer uma apropriação de si mesmo na qual sejam incorporados os valores mais vitais ao projeto existencial transcendente de auto-superação criadora do sentido da vida e sejam abandonados aqueles valores que bloqueiam o desenvolvimento pleno dos dons, talentos e capacidades que possibilitam tal transcendência. Com isso, torna-se necessário participar ativamente da instituição cultural dos instintos, impulsos, pulsões, desejos e afetos mais vitais ao crescimento da potência de uma tal vontade.
A essência do estilo singular que se dá à própria existência manifesta-se (existencialmente) através das criações culturais de modos de vida plenos de significados e abundantes de realizações. Para isso, é necessário que o pensamento filosófico realize toda uma crítica de valores e sentidos vigentes que precisam ser superados para possibilitar estilos de vida imanentemente transcendentes e vitalizados, e portanto, sábios na arte de viver.

Ivan Maia de Mello

sábado, 6 de outubro de 2007

Experimentalização

Saudações filosofortes!
Inicio agora o novo meio de comunicar a produção filosófica, viabilizando o acesso a textos que podem ser compartilhados para promover um pensar filosófico próprio aos que a isso se dedicam.