quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A NOÇÃO DE HARMONIA NO PENSAMENTO TRÁGICO DE HERÁCLITO

A noção de harmonia tornou-se, ao longo dos tempos, uma das mais importantes noções estéticas na história das artes. Interpretada de diferentes modos, ela conduziu muitos artistas em seu processo criativo no intuito de comporem harmonicamente suas obras, seja na poesia, na música, na dança, nas artes plásticas ou em outras linguagens.
Essa noção foi pensada de modo originário por um dos pensadores gregos mais emblemáticos daquilo que Nietzsche chamou “a época trágica dos gregos”, a saber, Heráclito, sábio que viveu por volta do século V a.C. e foi denominado de “obscuro” pelos seus contemporâneos, assim se mantendo pela posteridade até o século XIX, quando Hegel e Nietzsche retomam seu pensamento para formular algumas das concepções mais influentes que repercutem em nossa contemporaneidade.
Heráclito pensou a harmonia num sentido que ainda nos parece inusitado, na medida em que concebeu esta como uma divergência concordante, ou uma concordância dos divergentes, uma “harmonia de tensões opostas, como do arco e da lira” (frag. 51). Essa que nasce do enfrentamento entre os opostos seria para ele “a mais bela harmonia”. A metáfora do arco e da lira torna-se uma imagem sugestiva quando consideramos o modo como a sonoridade desse instrumento musical é produzida em sua forma atual pela fricção entre as cordas da lira e a corda do arco, todas retesadas.
Essa imagem corresponde à harmonia visível, que os artistas procuram mostrar em suas obras. No entanto, Heráclito considera ainda uma harmonia invisível, que para ele seria superior à visível (frag. 54), pois a harmonia seria imanente à condição de oposição entre tensões que se encontra em devir, ou seja, o que vem a ser harmônico é a dinâmica das polaridades que se opõem.
Portanto, a compreensão da harmonia elaborada a partir da interpretação do pensamento de Heráclito é a que se configura por meio do pensamento intuitivo que ele chama de logos, referindo-se a uma apreensão em conjunto da realidade efetiva que capta seu sentido imanente em contínua mutação, isto é, como algo vem a ser o que é em determinada conjuntura.
Esse vir-a-ser é para ele uma espécie de jogo entre forças, que em sua relação dinâmica de enfrentamento produz a harmonia pela regulação mútua que este jogo propicia. Esta é uma compreensão lúdica do modo como a existência torna-se o que é e cuja metáfora dada por Heráclito é a de “um fogo eternamente vivo, que se acende com medida e se apaga com medida”(frag. 30).
Isso significa que a compreensão da harmonia por meio desse logos se dá de modo paradoxal, como uma divergência concordante, uma harmonia que surge do conflito ainda que não se mostre nele imediatamente.
Assim, a harmonia, como a compreendemos a partir de Heráclito, é uma qualidade sutil, dinâmica, paradoxal, que muitos artistas tentam intuitivamente tornar aparente em suas criações, mas que permanecerá sempre velada em sua plenitude, ainda que possa alcançar possibilidades estéticas extraordinárias.
Nietzsche interpretou o pensamento de Heráclito por essa via e elaborou uma compreensão do caráter trágico da cultura grega, que alcançou seu apogeu nessa época em que surgiram os chamados “pensadores originários”.
A tragicidade da visão de mundo heraclitiana foi considerada por Nietzsche do modo como ele expõe em sua obra A filosofia na idade trágica dos gregos, onde ele diz:
“O devir único e eterno, a inconsistência total de todo o real, que somente age e flui incessantemente, sem alguma vez ser, é, como Heráclito ensina, uma idéia terrível e atordoadora, muitíssimo afim, na sua influência, ao sentimento de quem, num tremor de terra, perde a confiança que tem na terra firme. Foi preciso uma energia surpreendente para transformar este feito no seu contrário, em sublimidade e no assombro bem-aventurado. Heráclito chegou a esse ponto graças a uma observação do verdadeiro curso do devir e da destruição, que ele concebeu sob a forma da polaridade, como a disjunção da mesma força em duas atividades qualitativamente diferentes, opostas, e que tendem de novo a unir-se.” (pag. 42)
Essa intuição que Nietzsche atribui a Heráclito como “uma idéia terrível e atordoadora” que ele teria convertido numa espécie de “bem-aventurado assombro” é apresentada por Nietzsche como uma compreensão da harmonia do seguinte modo:
“Será que este mundo está cheio de culpa, de injustiça, de contradições e de sofrimento?
Sim, grita Heráclito, mas só para o homem limitado que vê as coisas separadas umas das outras e não no seu conjunto, não para o seu contuitivo; para este, todos os contrários confluem numa harmonia, invisível, é verdade, ao olhar humano comum, mas inteligível para quem, como Heráclito, se assemelha ao deus contemplativo. (...) Nesse mundo, só o jogo do artista e da criança tem um vir à existência e um perecer, um construir e um destruir sem qualquer imputação moral em inocência eternamente igual. E, assim como brincam o artista e a criança, assim brinca também o fogo eternamente ativo, constrói e destrói com inocência. (pag. 49)
(...)
Ao mundo só assim o contempla o homem estético, que divisou no artista e na gênese da obra de arte como o conflito da multiplicidade que pode, no entanto, ter em si uma lei e um direito, como o artista se coloca meditativamente acima da sua obra e nela está quando trabalha, como a necessidade e o jogo, o conflito e a harmonia se conjugam constantemente para gerar a obra de arte.” (pag. 50)
Em uma passagem do livro Ecce homo na qual Nietzsche comenta sobre a “sabedoria trágica” contida em sua obra O nascimento da tragédia e refere-se a Heráclito como aquele que melhor desenvolveu essa perspectiva entre os gregos, ele expressa essa afinidade dizendo:
“(...) Heráclito, em cuja vizinhança sinto-me mais cálido e bem-disposto do que em qualquer outro lugar. A afirmação do fluir e do destruir, o decisivo numa filosofia dionisíaca, o dizer sim à oposição e à guerra, o vir a ser, com radical rejeição até mesmo da noção de ‘ser’, nisto devo reconhecer, em toda circunstância, o que me é mais aparentado entre o que até agora foi pensado.”(pag. 64)
O pensamento de Nietzsche chega assim a essa compreensão final em sua autobiografia tendo partido da concepção expressa em sua primeira obra, na qual ele pensa o surgimento da arte trágica entre os gregos como resultado da conjunção harmônica dos dois impulsos artísticos opostos que ele chamou de dionisíaco e apolíneo, o que reflete bem a influência da concepção de harmonia do pensamento trágico de Heráclito.

3 comentários:

armand disse...

Ola Ivan Maia, felicitaciones desde Argentina, maravilhosa tua página, muito dionisíaca.... Agora tomando um vinho disfruto de suas lecturas...
Armand
Argentina

Anônimo disse...

Olá, professor.
Acredito que não irá se recordar de mim, afinal, são tantos os alunos... Mesmo assim, queria lhe deixar ao menos umas palavras de gratidão pela aprendizagem, muito construtiva, que pude adquirir em suas aulas no Anchieta. Hoje eu estou justamente me preparando para entrar para a faculdade de Filosofia, minha primeira opção de curso.
Um abraço,
Julia Druant.

filosofenix disse...

Cara Julia, não poderia esquecer uma das melhores estudantes de minas turmas no Colégio Anchieta! gostaria de poder encontrá-la para saber como andam seus estudos de filosofia...abraço, Ivan.